15 julho 2005

Saber como era o mundo

O provável, Florita, era que a tua memória retivesse desses primeiros anos apenas o que a tua mãe te contara. Eras muito pequena para te lembrares dos jardineiros, das criadas, dos móveis forrados de seda e veludo, dos pesados cortinados, dos objectos de prata, ouro, cristal e porcelana pintada à mão que adornavam a sala e a casa de jantar. Madame Tristán fugia do esplendoroso passado de Vaugirard para não ver a penúria e as misérias da malcheirosa Praça Maubert, fervilhante de mendigos, vagabundos e gente de má vida, nem aquela Rua du Fouarre cheia de tabernas, onde tinhas passado uns anos de infância dos quais, esses sim, te recordavas muito bem. Andar abaixo e acima com bacias de água, andar abaixo e acima com os sacos de lixo. Receosa de encontrar, na escadinha empinada de degraus comidos da traça que rangiam, aquele velho bêbedo de cara violácea e nariz inchado, o tio Giuseppe, mão comprida que te sujava com o seu olhar e, às vezes, beliscava. Anos de escassez, de medo, de fome, de tristeza, sobretudo quando a tua mãe caía num estupor aparvalhado, incapaz de aceitar a sua desgraça, depois de ter vivido como uma rainha, com o marido – o seu legítimo marido perante Deus, pesasse a quem pesasse –, Don Mariano Tristán y Moscoso, coronel dos Exércitos do Rei de Espanha, morto prematuramente de uma apoplexia fulminante a 4 de Junho de 1807, quando tu tinhas apenas quatro anos e dois meses de idade.
Era também improvável que te lembrasses do teu pai. A cara cheia, as espessas sobrancelhas e o bigode encrespado, a tez levemente rosácea, as mãos com anéis, as longas patilhas grisalhas de Don Mariano que te vinham à memória, não eram os do pai de carne e osso que te levava ao colo ver as borboletas revolutear entre as flores do jardim de Vaugirard, e, às vezes, se dispunha a dar-te biberão, esse senhor que passava horas no escritório a ler crónicas de viajantes franceses pelo Peru, o Don Mariano que o jovem Simón Bolívar, futuro Libertador da Venezuela, da Colômbia, do Equador, da Bolívia e do Peru, vinha visitar. Eram os do retrato que a tua mãe expunha na mesa-de-cabeceira no andarzinho da Rua du Fouarre. Eram os dos óleos de Don Mariano que a família Tristán possuía na casa de Santo Domingo, em Arequipa, e que passaste horas a contemplar até te convenceres de que esse senhor bem-parecido, elegante e próspero era o teu progenitor.
Que teria acontecido se o coronel Don Mariano Tristán tivesse vivido muitos mais anos? Não terias conhecido a pobreza, Florita. Graças a um bom dote, estarias casada com um burguês e viverias porventura numa bela mansão rodeada de parques, em Vaugirard. Ignorarias o que é ir para a cama com as tripas retorcidas de fome, não saberias o significado de conceitos como discriminação e exploração. Injustiça seria para ti uma palavra abstracta. Mas, se calhar, os teus pais ter-te-iam dado instrução: colégios, professores, um tutor. Embora não fosse garantido: uma menina de boas famílias era educada unicamente para caçar marido e ser uma boa mãe e dona de casa. Desconhecerias todas as coisas que tiveste de aprender por necessidade. Bom, sim, não farias aqueles erros de ortografia que toda a vida te envergonharam e, sem dúvida, terias lido mais livros do que aqueles que leste. Terias passado os anos ocupada com o teu guarda-roupa, a cuidar das mãos, dos olhos, dos cabelos, da linha, fazendo uma vida mundana de saraus, bailes, teatros, lanches, excursões, coquetarias. Serias um belo parasita enquistado no teu bom casamento. Nunca terias sentido curiosidade por saber como era o mundo para além desse reduto no qual vivias confinada, à sombra do teu pai, da tua mãe, do teu marido, dos teus filhos. Máquina de parir, escrava feliz, irias à missa ao domingo, comungarias nas primeiras sextas-feiras e serias, aos quarenta e um anos, uma matrona roliça com uma paixão irresistível pelo chocolate e pelas novenas. Não terias ido ao Peru, nem conhecido a Inglaterra, nem descoberto o prazer nos braços de Olympia, nem escrito, apesar dos teus erros de ortografia, os livros que escreveste. E, evidentemente, nunca terias tomado consciência da escravidão das mulheres nem te teria ocorrido que, para se libertarem, era indispensável que elas se juntassem aos outros explorados a fim de levar a cabo uma revolução pacífica, tão importante para o futuro da humanidade como o aparecimento do cristianismo havia mil oitocentos e quarenta e quatro anos. «Foi melhor morreres, mon cher papa», riu-se, saltando da cama.


O PARAÍSO NA OUTRA ESQUINA
Mario Vargas Llosa